NOTA DE REPÚDIO CONTRA A AÇÃO DA PM NO NÚCLEO DE CONSCIÊNCIA NEGRA

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NOTA DE REPUDIO À AÇÃO VIOLENTA DA PM NO NCN

 

Na noite da ultima quinta-feira, 02/07/15 o Núcleo de Consciência Negra sofreu um dos seus piores ataques dos seus 28 anos de história, em mais uma operação truculenta e covarde a Policia Militar de São Paulo promoveu a invasão em nossa sede no horário do cursinho popular no período noturno, com alegação de estar perseguindo dois jovens negros que foram caçados no campus da Universidade. Os vários PMs adentraram à sala com armas que foram apontadas para todas e todos que estavam no recinto, sendo que um dos policiais entrou com uma metralhadora empunhada mesmo não havendo ninguém armado no local.

A partir deste momento o que se presenciou foi uma cena de horror e extrema truculência, com policiais empunhando armas e gritando ameaças aos jovens negros caçados e os alunxs e professorxs que tentavam compreender, assustadas, o que estava acontecendo. O professor que estava ministrando aula, numa demonstração de controle emocional, começou a questionar os policiais, pedindo que estes abaixassem as armas já que os dois jovens negros não apresentavam perigo, pois estavam desarmados e imobilizados.

Mesmo não tendo provas materiais contra os dois jovens negros, estes foram encaminhados para a delegacia, mas professores, membros da gestão e representantes de entidades também se dirigiram para o mesmo local para acompanhar o caso. Contamos também com a presença de advogados que acompanharam os procedimentos na delegacia.

Aos poucos obtivemos algumas informações sobre os jovens negros. Soubemos que são irmãos, tem 15 e 17 anos e residiam na São Remo, comunidade vizinha à USP. Quando crianças os dois irmãos costumavam brincar nas áreas verdes do campus, como faziam inúmeras famílias nos finais de semana, até que os dirigentes da instituição decidiram intensificar o apartheid já existente através do vestibular, construindo muros ao redor da Universidade.

Atualmente o acesso dos moradores da São Remo à universidade de São Paulo se restringe aos trabalhadores que prestam serviços nas empresas de segurança e limpeza. Estes cidadãos, negros em sua maioria, são invisíveis aos olhos da comunidade "uspiana", que vêem com naturalidade a exploração destes pelas empresas terceirizadas. Estes trabalhadores são vítimas constantes de calotes das empresas que fecham contratos com a USP e pouco tempo depois abrem falência fraudulenta para não pagar os salários e direitos trabalhistas aos seus funcionários.
No dia 02 de julho os dois irmãos andavam de bicicleta no campus, algo raro nos dias atuais, pois a maioria dos ciclistas vistos no Campus chegam de automóvel e utilizam as vias da universidade apenas como campo de treinamento.
O motivo dos dois irmãos terem se dirigido ao Núcleo em busca de socorro é uma incógnita para nós, mas esta decisão garantiu a integridade física de ambos, fortalecendo a importância política do espaço que nesse caso serviu como Quilombo dentro da USP, acolhendo os meninos, algo infelizmente raro em situações semelhantes a essa onde os dois jovens seriam expostos e entregues para a policia.

Alguns estudantes de nosso cursinho mostraram-se surpresos com os acontecimentos, pois não imaginavam que a polícia agiria na USP com o mesmo grau de violência que agem nas periferias. Sabemos que pelo papel de reivindicação que exerce, o NCN não possui o mesmo grau de blindagem que os demais espaços do campus, mostrando que a distinção territorial feita na sociedade, através dos marcadores raciais e sociais, se reproduz aqui e são determinantes para definir o grau de vulnerabilidade de nossa instituição. Afinal, um espaço que recebe jovens negros e de baixa renda e os prepara, muitas vezes com sucesso, para alcançarem uma vaga nas universidades públicas, mas que ao mesmo tempo problematiza, discute e coloque em pratica a luta contra as mazelas de nossa sociedade, não é bem visto pelo status quo e seus guardiões. Acreditamos que esse fato pode ser determinante para o nosso processo de ensino aprendizagem relações da sociedade.

Infelizmente não tínhamos estes dois jovens irmãos em nosso quadro de alunos, como gostaríamos, mas o grau de exclusão em nossa sociedade é tão dramático que projetos como o nosso têm um alcance restrito e vemos, com pesar, o extermínio de nossa juventude preta e pobre através dos assassinatos pela ação policial, mas também pelo projeto nefasto de encarceramento em massa, que rouba a dignidade, tirando a perspectiva de vida, humilhando e matando aos poucos esses jovens e suas famílias.

O principal projeto político do Núcleo de Consciência Negra é para que a juventude preta, indígena e pobre tenham acesso ao conhecimento, mas tudo isso passa pela garantia de sobrevivência destes jovens, com direito a uma vida plena, onde lhes sejam assegurados direito à cidadania, pois não podemos esquecer que foram seus ancestrais os responsáveis pela construção material e intelectual deste pais, através de sua força de trabalho e uso de tecnologias criadas pelos povos africanos e indígenas.
Condenamos a truculência policial contra dois jovens desarmados e imobilizados e o desrespeito dos policiais com nossos alunos, professores e com a nossa entidade. Os policiais que participaram desta ação cometeram vários abusos de poder que estão documentados e exigimos que sejam responsabilizados.
À direção da universidade cobramos esclarecimentos por permitir que a polícia militar continue a exercer sua truculência dentro do campus, como demonstrado em inúmeros casos, pois para quem estuda e trabalha na USP não interessa ter um aparato policial que coloque em risco sua integridade física.
Lutamos por mudanças estruturais em nossa sociedade, onde todas as pessoas, independente de sua cor de pele e status social, sejam tratadas com dignidade e o acesso ao conhecimento não passe pelo filtro racial.

Não se pode separar paz de liberdade porque ninguém consegue estar em paz a menos que tenha sua liberdade.

Malcolm X